O surto de Covid-19 ocorreu em um contexto de comércio global lento que se arrasta desde a crise financeira de 2008. Embora o volume do comércio de bens, entre 1990 e 2007, tenha crescido a uma taxa média de 6,2% ao ano, “estabilizou-se” em apenas 2,3% ao ano, entre 2012 e 2019. Da mesma forma, a participação das exportações de bens e serviços no PIB global, que atingiu um máximo histórico de 31,0% em 2008, estava em torno de 28,0% desde 2015. A rápida disseminação do Covid-19 e as medidas tomadas pelos governos para contê-lo tiveram sérias consequências para as principais economias. Muitas atividades produtivas foram interrompidas em todo o mundo, inclusive com o fechamento generalizado de fronteiras. Isso resultou em um aumento acentuado do desemprego, especialmente nos Estados Unidos, com a consequente redução da demanda por bens e serviços. Houve retração do PIB global nos primeiros cinco meses de 2020.

Na China, a contração econômica foi menor do que a média global, em função do controle do surto e da reabertura de sua economia com relativa rapidez. Os países da América Latina e do Caribe foram as nações em desenvolvimento mais afetadas. O volume global de bens encolheu cerca de 18,5% no segundo trimestre de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019. O turismo, que representou 24% das exportações globais de serviços em 2019, foi particularmente impactado, com retração de aproximadamente 78%. A situação é particularmente preocupante para os países caribenhos. O Banco Mundial espera que o PIB global registre sua contração mais acentuada desde a Segunda Guerra Mundial.

As cadeias de valor globais foram o principal canal de transmissão dos efeitos da COVID-19 para o comércio global. As medidas adotadas pela China em janeiro, como o fechamento temporário da província de Hubei e das fronteiras nacionais, levaram à suspensão das exportações de insumos para as indústrias automotiva, eletrônica, farmacêutica e de suprimentos médicos. Isso forçou fábricas na América do Norte, Europa e o resto da Ásia a fechar por várias semanas por não contarem com fornecedores alternativos.

O valor das exportações do Mercosul diminuiu 12,4%. As maiores quedas ocorreram na Venezuela (-65%), explicada em grande parte pela queda acentuada dos preços do petróleo, e no Uruguai (-21,4%), em função da queda nas vendas de manufaturados e de produtos agrícolas, que costumavam ser vendidos principalmente no Mercosul. Na Argentina e no Brasil, as maiores quedas foram nas exportações de manufaturados (veículos, autopeças, produtos químicos), em função da menor demanda intraregional, e nos embarques de combustíveis. No entanto, os dois países tiveram um aumento nas exportações de produtos agrícolas (carnes, laticínios, soja, frutas, açúcar), principalmente para a China e outros países asiáticos.

Na América Central, a Costa Rica se beneficiou do aumento da demanda por dispositivos médicos, especialmente dos Estados Unidos. Enquanto isso, Guatemala e Honduras expandiram suas exportações de equipamentos de proteção individual, especialmente máscaras, e de produtos agrícolas. A Nicarágua capitalizou a alta do preço do ouro e dos volumes de produtos agrícolas e pecuários exportados (incluindo café, cana-de-açúcar, feijão e fumo). A resiliência econômica desses países pode ser parcialmente explicada pela importância do comércio dentro de sua própria sub-região, o que ajudou a compensar a menor demanda de seus parceiros extrarregionais. A América Central tem o maior coeficiente de comércio intrarregional da América Latina e do Caribe, atingindo cerca de 29,8%. O setor industrial mais atingido foi o automotivo, com queda de 55,0% aproximadamente, seguido pelo setor têxtil, de vestuário e de calçados. Apenas o comércio de produtos agroindustriais teve crescimento modesto.

No caso dos produtos agropecuários, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai foram beneficiados pela queda nas vendas da Austrália para a China, principalmente por conta da seca na Austrália, que reduziu a produção de grãos. Os países do Mercosul também se beneficiaram do aumento das importações de carne bovina e suína na China para garantir o abastecimento alimentar.

A aviação tem sido um dos setores mais afetados pela pandemia. Nos primeiros cinco meses de 2020, as companhias aéreas perderam quase metade de seu valor de mercado. O severo impacto da pandemia obrigou várias companhias aéreas a solicitar apoio financeiro. A aviação é fundamental para a conectividade territorial, turismo e geração de empregos, por isso o futuro das empresas do setor afetará o desempenho econômico globalmente. A pandemia afetará os níveis de endividamento das companhias aéreas e, potencialmente, as rotas servidas, a frequência dos voos e as taxas de serviço. Isso pode ter um impacto negativo na conectividade de territórios remotos e ilhas, e na acessibilidade dos seus serviços, uma vez que dependem dos serviços aéreos para o transporte de residentes, carga e turistas.

A atividade de transporte também foi reduzida por ciclos operacionais mais longos. Os tempos de carga, descarga e trânsito aumentaram devido a medidas como postos de controle de saúde nos principais corredores. Ao mesmo tempo que as receitas caíram com a redução do frete, o número de viagens sem backload aumentou devido à falta de carga em ambas as pontas da cadeia de abastecimento.

A pandemia provavelmente reforçará duas tendências interrelacionadas que já estavam tomando forma. A primeira é uma mudança no sentido de uma menor interdependência na produção, comércio e tecnologia entre as principais economias do mundo, especialmente entre os Estados Unidos, Europa e China. O segundo é uma tendência para um comércio mundial mais influenciado por considerações geopolíticas e de segurança nacional. O resultado líquido não será a reversão da globalização, mas uma economia mundial mais regionalizada, organizada em torno de três grandes pólos produtivos: América do Norte, Europa e Leste e Sudeste Asiático. A integração regional deve desempenhar um papel fundamental nas estratégias de recuperação da crise na América Latina e no Caribe. O estabelecimento de um mercado integrado de 650 milhões de pessoas proporcionaria aos países da região proteção significativa contra choques externos de oferta ou demanda. Também ajudaria a alcançar a escala necessária para fortalecer setores estratégicos, como produtos farmacêuticos e suprimentos médicos, e para fomentar a produção compartilhada e redes de pesquisa entre países e sub-regiões. Portanto, uma integração regional mais profunda deve ser um componente essencial de qualquer estratégia para superar a crise. Dado o papel crucial do mercado regional para exportações de manufaturados e pequenas e médias empresas exportadoras, uma ação coordenada para reativar o comércio intrarregional pode mitigar a perda do tecido empresarial e a reprimarização da estrutura produtiva e exportadora que será o legado da pandemia na América Latina América e Caribe.

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